sábado, 14 de julho de 2012

O MP como profissão de fé


Alguém já deve ter escrito muito melhor sobre a relação entre justiça e religião. Não me atrevo a entrar também neste assunto. É melhor deixar para quem pode, não pra quem quer.


O que me traz aqui é a semelhança entre as profissões que promovem justiça e que promovem religião.

Dentre os que promovem a justiça, advogados, juízes, funcionários, oficiais de justiça, etc, está o promotor de justiça. O próprio nome do cargo já tenta deixar claro isso.

Para promover a justiça o promotor ouve pessoas, compreende seus dramas, suas aflições, sugere posturas diferentes, aplaude, pergunta, aconselha. Sim, embora a Constituição diga que o Ministério Público não pode ser consultor jurídico, muito do dia-a-dia de uma promotoria é sim pura e simples consultoria, aconselhamento, orientação em geral. Olhem lá nos mapas estatísticos e, nos mais completos, constará "atendimento ao público" e "orientação jurídica em geral".

Para promover a justiça, depois de ouvir, de sentir, de compreender, o promotor também age. E aí, intercede perante o representante da Justiça, que geralmente é o juiz (mas pode ser desembargador, prefeito, presidente da câmara, ou até mesmo chefe de qualquer outro órgão). Intercede para que, afinal de contas, a justiça seja feita. Esse "interceder" inclui pedir para um injusto ser corrigido através de uma pena, para que devolva dinheiro roubado, ou até mesmo para que o Estado forneça medicamento ou construa uma escola.

Promover a justiça não acaba por aí. Depois de a Justiça mandar rezar os pais-nossos e as aves-marias, lá vem novamente o promotor cuidar para que as coisas voltem ao seu lugar tranquila e pacificamente. Quem foi punido terá que cumprir sua penitência; quem foi condenado a devolver terá que abrir o talão de cheques; quem foi vítima poderá secar suas lágrimas. 

Todo promotor é meio padre. O promotor tem a Justiça como entidade superior a se dirigir. O padre tem a Deus. Nem discuto o tamanho de cada um, afinal, até mesmo João Paulo II reconheceu que fé e razão não se bicam muito bem. A diferença é que o padre professa a fé em Deus; o promotor, na Justiça.

Por mim, fico com esse sentimento bonito, com esta sensação de ser apenas um caminho para fazer o cidadão experimentar uma sensação bonita, a de Justiça. O Ministério Público é, para quem realmente o exerce, uma profissão de fé, de fé na Justiça.