terça-feira, 19 de maio de 2009

Redescobrimento do Brasil - Joaquim Barbosa


Por Jorge Portugal - Baiano de Santo Amaro da Purificação, educador, poeta, membro do Conselho Nacional de Política Cultural (mailto:secretaria@jorgeportugal.com.)


Naquele 22 de abril de 2009, nenhum nobre navegante português ousaria nos "descobrir". Descobertos fomos pelosolhos e pela voz do primeiro negro que, com altivez e coragem, no topo da nau capitânia do judiciário,admoestou o pretenso comandante.


Naquele 22 de abril de 2009, não caberia um 7 de setembro em que o filho do rei, futuro imperador do país,daria gritos de independência às margens de um riacho qualquer; ali, ouvimos o brado da liberdade e dainsubmissão da voz abafada do povo, silenciada por séculos pelos donos do poder, através de sucessivos crimesde lesa-cidadania: "Respeite, ministro! Vossa Excelência não tem condições de dar lição de moral em ninguém!"


Naquele 22 de abril de 2009, nenhuma princesa "bondosa" assinaria uma vaga lei que nos concedia liberdade, masnos cassava a condição de cidadãos, proibindo-nos o voto, a escola de qualidade e o trabalho digno;presenciamos, sim, a abolição proclamada em nossas almas, 121 anos depois, pela voz corajosa de um Luís Gamaredivivo, encarnando todos os quilombos massacrados e abrindo os portões de todas as senzalas: "VossaExcelência não está nas ruas; está na mídia destruindo a credibilidade de nossa justiça!"


Naquele 22 de abril de 2009, nenhum marechal, de pijama, ousaria proclamar república nenhuma; o pacto de poderque condenou a maioria de nossa gente a ser um povo de segunda classe viu-se desmascarado pela indignaçãopatriótica de um João Cândido reeditado, que fez a chibata girar em movimento contrário, açoitando o lombo dosque se acostumaram a bater, por séculos a fio: "Respeite, ministro! Vossa Excelência não está falando com seuscapangas do Mato Grosso!"


Naquele dia, Ogum, Xangô e Oxóssi desceram os três num corpo só e reafirmaram a presença arquetípica da África dentro de nós. Todos os movimentos aparentemente derrotados dos nossos heróis anônimos puseram-se de pé,vitoriosos, mesmo que não tivessem vencido uma só batalha. A Revolta dos Búzios, a Revolução dos Malês, o Quilombo dos Palmares, todos, reencenaram seus teatros de operação e puderam, séculos depois, derrotarsimbolicamente o inimigo.


Naquele dia, saíram às ruas todas as escolas de samba, de jongo, todos os blocos afros; bateram os candomblés eas giras de umbanda, a procissão da Boa Morte, o Bembé do Mercado de Santo Amaro; brilharam os pequenos olhosda criança negra recém-nascida ao descortinar a luz azul de um futuro melhor.Naquele dia, materializando todos os nossos sonhos e desejos secularmente negados, Vossa Excelência deixou deser apenas um ministro do Supremo Tribunal Federal para tornar-se o supremo ministro de todos os brasileiros.


Transcrito da página de Opinião do jornal A Tarde, da Bahia, de 28.4.09